A Grande Ilusão


Susan Blackmore

O fluxo de experiências que designamos por “consciência” não é o que parece, diz Susan Blackmore. Não admira que ela seja tão difícil de explicar. “Último grande mistério da ciência;” o mais desconcertante problema da ciência da mente : é assim que os cientistas falam sobre “consciência”. Mas, e se todas as nossas experiências conscientes forem grandes ilusões ?

Como a maioria das pessoas, eu costumava comparar minha vida consciente a um fluxo de experiências que atravessassem minha mente, uma após a outra. Mas co-meço a conjecturar se a consciência é realmente isso. Seria essa assunção aparen-temente inocente a razão pela qual a idéia da consciência seja tão desconcertante ?

Diferentes linhas de pesquisa sobre os sentidos, na década passada, sugerem que os bravos estudiosos da ciência do conhecimento, psicólogos e neurologistas que ou-sam abordar o problema da consciência estão procurando a coisa errada. Se a cons-ciência parece ser uma corrente contínua de ricas e detalhadas visões, sons, senti-mentos e pensamentos, então sugiro que aí esteja o engano (ilusão). 

Primeiro, é preciso esclarecer o que se quer dizer com o termo ilusão. Dizer que a consciência é uma ilusão não é dizer que ela não exista, mas que não é o que parece – semelhante a uma miragem ou a uma ilusão visual .E se a consciência não é o que parece, não admira que seja tão misteriosa. Para que a proposição de que tudo se trate de uma ilusão mereça sequer ser considerada, o problema deve ser sério. E é. Não se pode nem mesmo começar a explicar a consciência. Tome essa revista que está diante dos seus olhos. Agora mesmo, você presumivelmente está tendo uma experiência visual consciente de ver o papel, as palavras e as figuras. O seu modo de ver a página é peculiar a você, e ninguém mais pode saber exatamente como ele se dá em você. É assim que se define a consciência: é a experiência subjetiva que é exclusivamente sua. 

Mas como você vai de uma revista real, composta de átomos e moléculas, para a sua experiência de vê-la ? Objetos reais, físicos, e experiências pessoais são espé-cies de coisas completamente diferentes; como se podem relacionar uma com a ou-tra ? David Chalmers, da Universidade de Tucson, Arizona, diz que este é o “Gran-de Problema”. Como pode o estímulo de células cerebrais produzir experiências subjetivas? Parece mágica : água em vinho.

Se você ainda não está perplexo (caso em que não estarei fazendo direito meu tra-balho ) considere outra questão: parece que a maior parte do que acontece no cére-bro não é consciente. Por exemplo, podemos estar conscientes de ouvir uma canção no rádio do carro, conquanto não estejamos conscientes de todas as coisas que fa-zemos enquanto dirigimos. Isso nos conduz a fazer uma distinção fundamental: contrastar processos cerebrais conscientes com aqueles que não o são . Mas nin-guém pode explicar qual é a diferença real entre uns e outros. Existe um lugar es-pecial no cérebro onde coisas inconscientes se fazem conscientes ? Serão certas células cerebrais dotadas de algo especial e mágico que torna o que passa por elas subjetivo ? Isso não faz sentido. Entretanto a maior parte das teorias sobre a “cons-ciência” pressupõe que deva haver tal diferença e, depois, essas teorias ficam em xeque para explicá-la ou investigá-la.

Por exemplo, na popular teoria em circulação do “Global Work Space”, Bernard Baars do Wright Institute em Berkeley, Califórnia, equipara os conteúdos da cons-ciência aos da memória ativa. Mas como o estar na “memória” transforma impulsos elétricos em experiências pessoais?

Outra linha popular de pesquisa é a que busca os “correlatos neurais” da consciên-cia. O Prêmio Nobel Francis Crick quer demarcar as atividades cerebrais que cor-respondem “ao retrato vívido do mundo que vemos diante dos nossos olhos”. Uma farmacologista de Oxford, Susan Greenfield, procura o “estado físico particular do cérebro que sempre acompanha um sentimento subjetivo”( New Cientist, 2 de feve-reiro, pág. 30 ).

Esses pesquisadores não estão sozinhos em suas buscas Porém todas as tentativas tropeçam exatamente no mesmo mistério: como podem certos tipos de atividade cerebral estar “no” fluxo da consciência , enquanto outros não? Não vejo como essa diferença seria possível.

Poderia o problema ser tão sério que precisássemos voltar ao princípio? É possível, afinal, que, não exista nenhum fluxo da consciência, nenhum filme no cérebro, ne-nhuma imagem do mundo que temos diante dos olhos? Não seria tudo isso apenas uma grande ilusão?

Você pode protestar que está absolutamente certo de experimentar suas vivências conscientes como se constituíssem um fluxo. Mas talvez tenha notado uma insti-gante singularidadezinha. Imagine que está lendo esta revista quando, de repente, percebe que o relógio está batendo. Você não tinha notado antes, mas agora que notou, sabe que o relógio bateu quatro vezes e você pode continuar contando as batidas. O que aconteceu aqui? Foram as três primeiras batidas realmente “incons-cientes”, depois pinçadas da memória e jogadas na corrente da consciência? Se as-sim foi, o conteúdo da corrente foi mudado retrospectivamente para parecer que você as tinha ouvido na ocasião? Ou o quê? Você pode elaborar outras explicações para isso mas é improvável que sejam simples ou convincentes.

Problema semelhante se põe quando ouvimos falar. Você precisa escutar várias sílabas antes que o significado de uma frase se torne inequívoco. Então, o que esta-va na consciência após uma sílaba? E o que era transformou-se de gorgolejo em palavras no meio do trajeto? Não nos parece assim, pois percebemos como se tivés-semos ouvido uma frase com sentido enquanto ela era dita. Mas isso é impossível.

A consciência também faz coisas engraçadas com o tempo. Um bom exemplo é o “cutaneous rabbit”. Se se dão rápidos tapinhas no braço de uma pessoa, digamos, 5 vezes no pulso, depois 2 perto do cotovelo e finalmente 3 vezes no antebraço, eles são sentidos não como uma série de tapas isolados, dados em grupos, mas como uma série contínua movendo-se para cima, como se um bichinho corresse braço acima.

Poderíamos perguntar como os tapas , do 5 ao 2 foram sentidos como se subissem o antebraço, quando o próximo tapa na série ainda não havia sido dado. Como o cé-rebro sabia onde o próximo tapa cairia?

Poder-se-ia explicar dizendo que o fluxo da consciência atrasa-se um pouco, para o caso de haver mais tapas. Ou talvez que quando o tapa no cotovelo é dado, o cére-bro volta atrás no tempo e muda o conteúdo da consciência. Se assim for, o que es-tava realmente na consciência quando o tapa 3 aconteceu? O problema surge ape-nas quando consideramos que as coisas devem sempre estar “dentro” ou “fora” da consciência. Se essa distinção aparentemente natural causa tanto trabalho, talvez devêssemos abandoná-la.

Dificuldade ainda mais profunda cerca a nossa compreensão dos mecanismos da visão consciente. Você pode estar inteiramente convicto de que, neste exato mo-mento, esteja vendo uma imagem vívida e detalhada do mundo diante de seus olhos e ninguém pode contestá-lo. Considerem-se, então, algumas experiências.

As mais desafiadoras são estudos sobre a “cegueira de mudança”(New Scientist, 18 de novembro de 2000, pág. 28). Imagine que lhe pedem para olhar a figura da es-querda da ilustração abaixo. Então, no exato momento em que você movimenta os olhos (o que se faz várias vezes por minuto) a figura é trocada pela da direita. Vo-cê notaria a diferença? A maior parte das pessoas crêem que sim. Mas estariam enganadas. Quando nossos olhos estão parados, detectamos mudanças facilmente, mas quando a mudança acontece durante um movimento do olho ou numa piscada, ficamos com a “cegueira da mudança”.

Outro modo de demonstrar essa cegueira do movimento é apresentar as duas figu-ras uma após a outra repetidamente numa tela de computador com “flashes” de cin-za nos intervalos (veja como exemplo: http://nivea.psycho.univ.paris5.fr/ASSCgt-ml/kayakflick.gif). Podem ser necessários muitos minutos para as pessoas detecta-rem mesmo um grande objeto que mude de cor, ou um que desapareça completa-mente, mesmo que esteja bem no meio da figura.

Que significam esses extraordinários achados? No mínimo eles ameaçam a lição dos livros de que a visão seja um processo de construção, em nossas cabeças, das coisas do mundo que nos cerca. A idéia é a de que, enquanto movemos nossos o-lhos ao redor, vamos compondo um quadro sempre mais detalhado e este quadro é aquilo que temos consciência de ver. Essas experiências mostram, porém, que esse modo de pensar a visão tem que ser falso. Se tivéssemos tal quadro em nossas ca-beças certamente notaríamos que algo mudara, mas não o fazemos: partimos para a conclusão de que estamos vendo uma imagem contínua, detalhada e rica. Isto, po-rém, é uma ilusão.

Pesquisadores discordam quanto à significação dessa ilusão. Os psicólogos Daniel Simons, de Harvard e Daniel Levin, da Universidade Estadual de Kent, em Ohio, sugerem que durante cada fixação visual nosso cérebro constrói uma representação transitória da cena. Ele então extrai o essencial e descarta todos os detalhes. Isso é que nos dá o sentimento de continuidade e riqueza, sem demasiada sobrecarga.

Ronald Rensink, da Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, vai mais além e afirma que nunca formamos representações da cena como um todo, nem mesmo enquanto as fixamos. Pelo contrário, construímos o que ele chama de “re-presentações virtuais” somente do objeto ao qual estamos prestando atenção. Nada mais é representado em nossas mentes, mas ficamos com a impressão de que tudo esteja lá, porque um objeto novo sempre pode ser introduzido no exato momento no exato momento em que estamos olhando. Finalmente, nossas noções ordinárias sobre a visão são demolidas pelos psicólogos Kevin O’Regan da CNRS, a Agência Nacional Francesa de Pesquisa, em Paris, e Alva Noë, da Universidade da Califór-nia, Santa Cruz, que primeiro descreveram a visão como fenômeno ilusório. Ar-gumentam que não necessitamos de nenhuma representação interior, porquanto o mundo está sempre lá como referência. De acordo com sua teoria sensório-motora da visão, não se trata de construir imagens do mundo em nossas mentes mas a vi-são tem a ver com o que estamos fazendo. Ver é uma forma de interagir com o mundo, uma forma de ação. Aquilo que permanece no intervalo entre os movimen-tos do olho não é um retrato do mundo, mas a informação necessária para ulterior exploração. A teoria é dramaticamente diferente das teorias da percepção anterio-res.

Não se sabe, claramente, qual está certa. Talvez todas estejam equivocadas. Mas não há dúvidas quanto ao fenômeno básico e sua principal implicação. A procura do correspondente neural do quadro detalhado em nossos cérebros está condenada porque tal quadro não existe.

Aí se coloca um novo problema: se não temos uma imagem, como podemos agir sobre o que vemos? Embora pareça razoável, a pergunta esconde outra falsa pre-missa: a de que para agir temos que ver conscientemente. Basta pensarmos no jo-gador de tênis que devolve um serviço antes de vê-lo conscientemente para verifi-carmos que ela é falsa. Mais extraordinário ainda é que tenhamos, provavelmente vários sistemas visuais autônomos que fazem seu trabalho de forma algo indepen-dente, em vez de um sistema único que produza uma visão unificada do mundo.

David Milner, da Universidade de St. Andrews e Melvyn Goodale, da Universida-de de Western Ontario aventam que haja um sistema veloz para o controle visual-motor e um sistema mais lento para a percepção de objetos. Muito de suas conclu-sões vêm do estudo de pacientes com danos cerebrais, tal como D.F., que experi-menta a condição conhecida por agnosia visual. Ela não pode reconhecer objetos pela visão, nomear desenhos de linhas simples, reconhecer ou copiar letras, embora as reproduza corretamente quando ditadas e reconheça objetos pelo tato. Pode tam-bém alcançar e agarrar objetos familiares ( objetos que não pode reconhecer) com notável precisão. D. f. parece ter um sistema visual que orienta suas ações, mas seu sistema de percepção foi afetado. Experiência conclusiva foi feita, colocando-se D.F. diante de uma fenda (slot), posicionada ao acaso em diferentes ângulos. Ela não pode ver conscientemente a orientação da fenda, nem desenhá-la ou fazer coin-cidir uma linha com o mesmo ângulo; mas quando lhe deram um cartão, pôde ali-nhá-lo e introduzi-lo com rapidez e precisão. 

Talvez a conclusão mais óbvia seja a de que o sistema perceptivo lento seja consci-ente e o mais rápido, de ação, seja inconsciente. Mas então está de volta o velho mistério. Teríamos que explicar a diferença entre sistemas conscientes e inconsci-entes. Existe um ingrediente mágico num deles? A informação neural se trans-forma em experiência subjetiva apenas por ser processada mais lentamente?

Talvez a solução seja admitir que não existe o fluxo de experiências conscientes com base no qual agimos. Pelo contrário, uma grande quantidade de coisas diferen-tes perpassam por nosso cérebro contínua e instantaneamente. Nenhuma delas está “dentro” ou “fora”. Mas, mesmo assim, algo acontece para criar o que parece ter sido um fluir da consciência unificada; uma ilusão de riqueza e continuidade.

Parece estranho, mas tente surpreender-se não sendo consciente. Mais de cem anos atrás, o psicólogo William James comparava a análise introspectiva a “ tentativa de acender o lampião rápido o suficiente para perceber como a escuridão parece”. O equivalente moderno seria olhar dentro do refrigerador para ver se a luz está sem-pre acesa. Não importa quão rápido se abra a porta, nunca se pode surpreendê-la. O mesmo vale para a consciência. Sempre que você se pergunta “Estou conscien-te agora?”, você está.

Mas talvez somente quando você se pergunta haja algo ali. Talvez a cada tentativa uma história seja retrospectivamente confeccionada sobre aquilo que estava no fluxo da consciência um momento antes, juntamente com um “eu” que aparente-mente a estava vivenciando. É certo que não havia nem um eu consciente, e nem a corrente, mas agora é como se houvesse.

Talvez uma nova história seja fabricada sempre que você deseja olhar. Quando nos indagamos sobre ela, pareceria que um fluxo consciente estaria ocorrendo. Quando não nos importamos em perguntar, ou olhar, isso não acontece, mas então não o notamos, portanto não importa. Admitir que tudo seja uma ilusão não resolve o problema do que seja a consciência, porém modifica-o completamente. Em vez de perguntar como impulsos neurais se transformam em experiências conscientes, devemos perguntar como a grande ilusão é construída. Não será tarefa fácil, mas será, pelo menos, possível.

Susan Blackmore é psicóloga, escritora e conferencista em Bristol escreveu o pre-sente artigo na Revista “New Scientist, número 2348 de 22/06/02, páginas 26 a 29.

 

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