Realidade

Bernardo Damásio

Quando alguém diz: Olha ali um cavalo! O que de fato acontece?

Você ouve um som (recebe através dos ouvidos um código sonoro convencionado) que representa uma idéia, um conceito genérico que pretende representar “os cavalos”... Daí a mente faz ,através dos olhos, uma varredura visual nos arredores (no fenômeno a que chamamos visão), superpondo aquele conceito genérico “cavalo” a tudo o que percebe em volta.

Encontrando uma correspondência, você talvez possa dizer: É mesmo, lindo esse cavalo! (mais uma operação mental aqui foi adicionada, a comparação e a avaliação baseada em experiências passadas que criaram padrões de gostos/preferências e aversões... você também poderia dizer que o cavalo era feio, gordo, grande, pequeno, etc...) Se a mente, na varredura visual, não encontra qualquer correspondência entre os objetos percebidos e a idéia/conceito "cavalo", você pode indagar: Não vejo, onde,??? Por outro lado, se é encontrada mais de uma correspondência, você procura definição/precisão, dizendo: Qual deles? Ou pode ainda retificar a afirmação inicial, replicando:

São dois (três, quatro....)cavalos, não um!!!

Repare, todas essas operações mentais (bilhões delas!!!), apoiadas nos sentidos, realizamos a cada momento, na tentativa de compreender e interagir com o que acontece em nossa vida, com aquilo que vivenciamos.

Essa atividade mental pode ser simples, como no exemplo acima do cavalo (ou dos cavalos, se preferir, rs ), ou mais complexa, como nessa minha tentativa de escrever, e sua de tentar entender o que lê, sobre REALIDADE.

O fato é que, mais simples ou mais complexo, o processo de tentar descrever e compartilhar a realidade passa por diversas camadas perceptuais, envolvendo a habilidade dos sentidos de perceber os "objetos", as habilidades e tendências da mente de codificar/comparar/analisar/concluir e comunicar a conclusão, etc.

Isso vale para nossa percepção em todos os momentos da vida, em todas as situações corriqueiras ou eventuais, importantes ou triviais!!!

Ocorre que a realidade É, intrinsecamente, sem qualquer separação de partes (cavalos, observadores de cavalos, pessoas que usam cavalos como exemplos em suas tentativas de compartilhar visões, etc) .

Independente de qualquer nome que se dê, de qualquer análise que se faça, de qualquer opinião que se tenha, a realidade É.

Esse "distanciamento" entre o que simplesmente É e o que é percebido, codificado, analisado, etc. cria universos particulares, bilhões deles, ao mesmo tempo, completos e incomunicáveis em sua complexidade infinita!!!

Assim, enquanto alguém contempla o cenário, que o inclui como o contemplador, onde um cavalo corre livre pela praia, infinitas outras percepções são possíveis, podendo estar muito afastadas da simplicidade natural do momento, encobrindo o que acontece, o que É, com camadas e camadas, agradáveis ou não, de "pensamentos sobre".

Ousaria dizer que muito raramente estamos presentes, conscientes e realmente percebendo o que se apresenta na REALIDADE... Talvez na maior parte das vezes estejamos exilados em nossos universos particulares, mergulhados em camadas que nos turvam a percepção do REAL e nos fazem “perceber” apenas as próprias camadas, nossas “realidades” ( “o cavalo está correndo muito”, “meu amigo sempre vê os cavalos, mesmo de longe”, “ não tenho tempo pra ficar vendo cavalos agora”, “ esse cavalo se parece com o do Zorro”, etc, etc...)

Claro, pode-se argumentar que o processo de "compartilhar" a vida com outras pessoas se dá pela linguagem, que requer os códigos, as idéias/pensamentos, palavras, nomes...Mas o que, de fato, se pode compartilhar? O que estaria por trás dessa vontade quase universal de compartilhar através da linguagem...

Como seria compartilhar sem linguagem??? Seria possível???

Talvez seja a própria REALIDADE, que absoluta, completa, perfeita em si mesma, "quer" se "reunificar" através de nossa experiência de compartilhar ???

O que hoje chamamos de "vida" talvez sejam apenas nossos Universos particulares que construímos e habitamos, vivendo como imperadores de nossa solidão, em complexos castelos de areia à beira do OCEANO DE REALIDADE, que amorosamente, a cada momento, nos recebe em abraços- ondas de consciência ...

 

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